Desabafos de uma publicitária
Trabalhei com uma excelente diretora de arte e designer, já faz uns bons dez anos. Alguém de ideias brilhantes, rápidas e muito bem executadas. Enquanto eu pensava em um conceito ela me mostrava dez. E em menos de uma hora. Mas, generosamente, dividia comigo todo o crédito pelas ideias. Ela amava criar. Mas, como toda pessoa criativa e talentosa, era bastante sensível. Mas não pense que a sensibilidade fazia dela uma pessoa frágil ou emotiva. Pelo contrário, era turrona, briguenta, debochada. Provavelmente é o preço que pobres mortais precisam pagar para conviver com pessoas desta natureza.
Lembro dela todas as vezes que escuto a crítica de um cliente, ou pior, tenho uma campanha reprovada. Quando isso acontecia com a gente, ela saía da reunião cantarolando: “Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui. Percorri milhas e milhas antes de dormir. Eu nem cochilei”. Alguém do Cidade Negra também deve ser publicitário.
Se formos pensar pela perspectiva de quem paga a conta, ter como resultado final para apresentar um monte de papéis com algumas frases e figuras, uma marca no mesmo canto direito inferior, que invariavelmente será aumentada cinco vezes antes de veicular, pode dar a impressão de ser uma tarefa fácil.
Seria ótimo que fosse. Não teríamos razão para ficar sem almoço ou comer pizza de frente para um computador às 2 da manhã. Hábito que por sinal é terrivelmente ridículo. Não faz o menor sentido. E quando temos algo reprovado depois de uma enorme maratona, recheada de estresse, suor gelado, impressora que resolve enguiçar, expectativa exagerada porque sim, também somos egocêntricos, pânico por perder a conta que paga nossos salários e nos dá a confiança de ter escolhido a melhor profissão, precisamos adentrar por uma sala de reunião sorrindo, transmitindo confiança, segurança e entusiasmo. E com o dever de negociar, convencer e tentar arrancar do cliente algo mais valioso do que ele carrega na carteira: um elogio.
A falta desse último ingrediente fez minha ex-dupla buscar outra coisa. Porque alguém como ela não deveria mesmo ser desmerecida além de um limite suportável.
Ficam aqui minhas perguntas: o que fizemos ou deixamos de fazer para sermos tratados com desconfiança?
Estamos do mesmo lado, queremos a mesma coisa: que as marcas se tornem valiosas. Parafraseando o banco Santander: vamos juntos?
Elisa Quadros








